
Vida de detetive é assim. Ficar horas bizoiando a vida dos outros. A barriga começa a roncar. Estou em frente ao edifício 389, Praça Rui Barbosa. Só na tocaia. O centro está agitado. Final do ano é esta merda, as lojas ficam abertas até tarde e acontece a porra do Natal do Palácio Avenida. Agora uma multidão vem em direção à praça para pegar os ônibus. Todos coloridos, com enfeites de néons que piscam. Esta é a moda deste ano. Ali perto da Zacarias tem um monte de camelô vendendo. Tiaras, badulaques, varinhas do Harry Potter. Muitos aproveitam para encher a cara e a festa vira azaração. No final da noite, gritam bêbados de uma esquina à outra. Eu sei por que meu escritório fica ali no Tijucas, em plena rua XV. Até prefiro estar trabalhando há esta hora. Músicas do Natal são insuportáveis. Estou aqui no edifício 389 desde as seis. Nada da Bernadete até agora. Sim, investigo um caso de traição. Para variar. Na verdade não posso reclamar. Graças a Deus me apareceu um trabalho. Estava no osso. O cliente me adiantou cem mangos, aproveitei para pagar a água que já iam cortar. Agora surge um grupo de manos vestidos com roupas de inverno. Como estes caras agüentam andar com blusas forradas de pêlos nesta época do ano. Tá, eu sei que Curitiba não é um Rio de Janeiro, mas porra, para mim isto é calor! Certa vez investiguei assaltos numa padoca no Uberaba, fiquei sabendo que existe um grupo chamado gangue da Xuxa. São desta laia de manos aí. Eles gostam das cores rosa e azul bebê. Patético. Falta do que fazer. As meninas andam feito umas bonecas bizarras, cheias de penduricalhos na cabeça.
Já é quase meia-noite. Tudo indica que não vai dar em nada. Ninguém entra, ninguém sai do edifício 389. Desço do carro para esticar as pernas. Na Ruiba, um movimento intenso de ônibus amarelos. As filas estão gigantescas. A tia do cachorro-quente vendendo a bangú! O povo vai se aglomerando para embarcar. São os últimos bondes da noite, depois só madrugueiro. Atravesso a rua para observar o edifício de longe. Apenas dois carros estacionados em frente. O meu e um Pálio preto. Na janela do terceiro andar, piscam luzes coloridas. Deve ser uma televisão ligada. Só consigo ouvir a algazarra da rua. Cheiro de pipoca e bacon aumenta minha fome. O prédio número 389 fica perto do 239. Já investiguei um magrão neste outro. Casado com uma mulher e dava o rabo para um colega que morava aí. Como o sujeito morava no primeiro andar, consegui filmar subindo naquela árvore. Cena ridícula né? Ônus da profissão. Trabalho com a sujeira, sou um urubu que não encosta o bico no cadáver. Minha missão é descobrir e registrar. Passo adiante. A parte suja mesmo fica pros meus clientes. Fico sabendo só depois, nas páginas da Tribuna. Acontece direto, de passar na banca e ver foto de cliente meu na capa do jornal no outro dia. Fueda, mas fazer o quê. Que se matem. Eu não vou ficar levando os problemas deles pra casa. Já bastam os meus. Quase sou atropelado por um grupo de mulheres com carrinhos de bebês agora. Cada uma com um churros na mão. O alvoroço vai diminuindo quando os ônibus partem, lotados. Olho em direção à XV e vejo apenas alguns bêbados retardatários vindo em direção à praça. Você pode estar se perguntando por que uso esta mochila do Batman. É para não entregar que sou um detetive. Quem suspeitaria de um velho de bigode e mochila do Batman? Tá certo que meu paletó xadrez não é nada discreto, mas pô, este não largo mão. Tenho vários inclusive! Cara, dentro desta mochila carrego vários xurumbambos. Microfones-caneta, filmadora, grampos, gravadores, maquina fotográfica. Um verdadeiro arsenal de trecos. Nunca sei quando vou precisar. Tenho também um uniforme de funcionário do correio, já me ajudou diversas vezes. Estas fantasias são úteis. Certa vez entrei numa festa de bacana vestido de Skrek. Filmei o freguês fodendo a amante na mesa de bilhar. Porra e o cara me viu filmando e nem pestanejou. Continuou metendo, vai ver curtiu o fetiche. Transar com o Shrek voyeur filmando. Hehe. Cada um... Aquela noite me dei bem! Fora os quitutes, que eram muito bons e eu até levei para casa o que sobrou. Fiquei amigo do garçom, que separou uma bandeja só de coxinhas para mim. Ponta de lança!
Acho que todo detetive é meio voyeur. Lembro que quando criança eu gostava de espiar as vizinhas com um binóculo. Depois, chegava perto e era uma decepção. Espinhas, pele manchada. Às vezes acontecia também das meninas serem maiores do que eu. Hehe. No meu trabalho também é assim, quanto mais mergulho no caso, a podridão aumenta. Uma coisa leva a outra. Começa em adultério, depois vira assassinato e por aí vai. Procuro fazer apenas o necessário. Filmo, fotografo e vazo. Já cheguei até a mandar fotos por internet e o cliente depositou na minha conta. Simplificou a minha vida criar um site, cara! Que mão na roda! Entra lá quando puder: www.detetivemadureira.com.br. Têm pouca coisa ainda, mas lá você encontra meu email, contatos e textos explicativos. Foi o filho de um cliente meu que montou o site pra mim. Ele é webdesign, design, designer... Não sei como fala. Sabe né? Viadinho que trabalha com isso, desenha e o caralho. Ele vai fazer umas animações melhores mês que vêm para mim, talvez até criemos um personagem detetivesco. Mas o foda é que to sem grana agora para pagar o piá. Tenho que esperar entrar mais trabalho. No final do ano costuma ser meio lento mesmo. O pessoal volta ao ambiente familiar, faz uma moral com a patroa ou marido. O bicho pega mesmo durante o ano, em viagens de trabalho, sabe. Dizem que Brasília sim é uma cidade boa para trabalhar como detetive. As dondocas lá têm grana e são mais independentes. Fora o pessoal que trabalha na cidade, mas possui família em outra. Tenho um colega que mora em Brasília e me conta umas histórias por email.
Cara, que fome dos diabos! O movimento do natal passa e a praça volta a ficar silenciosa. Só uns uivos aqui e acolá. Percebo que a pastelaria do China ainda está aberta e caminho até ela. Está sempre aberta, isso que é bom. Uma vez até durante jogo da Copa. Os Chinas não ligam para as festividades. Querem é vender!
No balcão, uma garota de jaqueta esconde o rosto atrás de um capuz peludo, mas desvenda um grande cofrinho atrás, que chega nem a ser um cofrinho, e sim um carro forte. Peço um pastel de carne e um Chocomilk para a Chinesa que me pergunta algo que eu não entendo e respondo “Sim”. Eu nunca entendo o que ela fala. E nem ela a mim. Serve-me o pastel numa bandeja de plástico e bate a garrafinha de Chocomilk para agitar o chocolate do fundo. Bate bastante. Nem precisava tanto, mas acho que se empolga. Expressão e atitude de samurai. Pego meu jantar e me acomodo na primeira mesa, perto da porta onde posso ver o meu fusca e o 389. Gosto daqui porque o pastel está sempre morno, nunca é feito na hora. Odeio comer pastel quente, você dá aquela primeira dentada e quase queima a boca. Fora que o calor impede de sentir o gosto. Um sofrimento desnecessário.
É, parece que meu expediente hoje vai terminar por aqui. Nenhuma informação nova sobre a Bernadete. Têm dia que é assim. Morno como este pastel.
(foto por Nr Calmon)